segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Manaus está preparada para sediar a Copa?

Foto: Marco Facre
Nesta semana não teve como não pensar na Copa. Na segunda-feira, 9, o goleiro Júlio Cesar foi escalado como membro oficial da seleção brasileira para 2014 e na terça-feira, 10, o Brasil ganhou Portugal por 3x1 em um amistoso internacional em Boston (EUA). Hoje, 16, marcam-se exatamente 269 dias para o começo da Copa do Mundo FIFA 2014, que será sediada em nosso país.
Semana passada, alguns integrantes do Os Apocalípticos foram à Manaus novamente para participar do EXPOCOM - Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (na Intercom), que premia os melhores trabalhos da área no Brasil e no qual o nosso blog ganhou o prêmio regional em maio.
A viagem também foi uma oportunidade para presenciarmos e sentir na pele a situação atual da capital do Amazonas, que será uma das sedes da Copa 2014.
Bom, aqui exponho minhas constatações:
Primeiro, é preciso informar que a SECOPA – Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo da FIFA – estabelece 28 programas de análise da matriz. Como são muitos, me atentarei a apenas cinco.

1.              Arena
A FIFA solicita que a estrutura esportiva dos jogos contemple o padrão da Federação em termos de infra-estrutura, segurança do espaço e dos envolvidos no evento, tecnologia, controle e monitoramento, sustentabilidade, acessibilidade, entre outros. Os Apocalípticos tentou marcar uma visitação ao local para ver como estavam as coisas, porém nenhum dos contatos encontrados (como a Secretaria do Esporte) soube indicar o responsável para tal procedimento – o mesmo ocorreu com várias outras secretarias quando procuramos saber informações dos projetos.
O Portal 2014, iniciativa do Sinaenco não ligada àFIFA, aponta a ficha técnica das cidades sedes da Copa com indicações em cartões verde e vermelho de acordo com o andamento das obras. Segundo o site, a Arena Amazônia possui cartão verde, ou seja, está com uma boa situação,com montagem da cobertura iniciada em julho e com conclusão prevista para outubro.
Projeção da arena Amazônia/Foto: Divulgação FIFA
A nova arena substituirá o antigo estádio Vivaldo Lima (Vivaldão). O projeto é de autoria do escritório alemão GMP e inspira-se em elementos da cultura, fauna e flora amazonenses. Para a Copa, foi proposta uma reconstrução total de custo calculado em R$605 milhões, com contrato público, o que é bem caro se formos fazer uma relação custo x capacidade. A Arena Amazônia terá capacidade de 44.310 pessoas, enquanto o Maracanã, por exemplo, acolherá 76.000 lugares cuja é de reforma de R$ 808,4 milhões – ou seja, com o preço 1/3 maior e lotação 2x maior.
Esse projeto foi um dos principais motivos de revolta dos paraenses, que não sediarão a Copa, pois o estádio de Belém, Estádio Estadual Jornalista Edgar Augusto Proença (conhecido por Estádio Olímpico do Pará depois da reforma, ou popularmente, Mangueirão), apresentou necessidade de apenas pequenos ajustes em seu projeto. A arena já havia passado por uma reforma em 2002, o que, segundo os responsáveis,a deixou de acordo com as exigências da FIFA.
De acordo com informações da SEEL – Secretaria de Esporte e Lazer do Pará -, para a Copa também seriam criados espaços voltados para a mídia nacional e internacional no Mangueirão, com capacidade para 1.600 jornalistas, e uma área exclusiva para membros da FIFA. Haveria ainda um centro comercial no qual seriam vendidos produtos licenciados da Copa do Mundo de 2014. Além disso, boa parte da estrutura seria utilizada apenas após o Mundial para a formação de atletas. Durante a competição, apenas os quatros campos oficiais construídos pela Federação Paraense de Futebol seriam aproveitáveis. Dois deles teriam arquibancadas e vestiários completos, a serem utilizados como centro de treinamento para as seleções.
Muitos analistas consideram o Mangueirão como um dos melhores estádios do Brasil, e muito se acreditava na sua escolha para a realização de jogos da Copa do Mundo. O investimento necessário para 2014 foi calculado em cerca de 95 milhões de dólares (em torno de3 vezes mais barato que a Arena Amazônia).

1.              Entorno da arena
A FIFA exige acessibilidade ao estádio, fanparks, atrações oficiais e instalações aos envolvidos no evento, além de garantir que o entorno possua espaço adequado para a exposição publicitária dos patrocinadores credenciados pela FIFA.
Arena está bem localizada na cidade, bem no centro, próxima de hotéis, hospitais, bancos, shopping centers, supermercados e restaurantes, a uma distância de cerca de 6 km do centro histórico da cidade e da orla do Rio Negro. Fica também ao lado do Sambódromo de Manaus, o maior Centro de Convenções do gênero no Brasil, com capacidade para mais de 100 mil pessoas e bem famoso na região, como podemos perceber pela quantidade de eventos realizados no local e divulgados em outdoors, por exemplo.

2.              Mobilidade urbana
A FIFA cobra infraestrutura adequada, como meios de transporte de alta qualidade a serem disponibilizados aos envolvidos no evento.
Esse setor recebe cartão vermelho no Portal 2014 e eu, pessoalmente, o considero justo. Percebemos que Manaus possui pouca fiscalização no trânsito ao se comparar com outras capitais brasileiras, a julgar, por exemplo, pela falta de costume da maioria dos habitantes em usar cinto de segurança, inclusive de taxistas de cooperativas bem-reconhecidas. Além disso, é necessário haver mais táxis. O evento em que participamos, a Intercom Nacional, recebeu cerca de duas mil pessoas (22vezes menor em relação à lotação da Arena Amazônia).No último dia do Congresso, 7 de setembro, feriado nacional, os participantes tiveram muita dificuldade em encontrar táxi devido ao horário, à acessibilidade de comunicação das cooperativas e ao fato de ser feriado.
Por outro lado, táxi é, em muitos casos, a melhor opção de transporte na cidade, já que tem uma bandeirada com um preço relativamente bom (R$3,50) se comparada a de Belém (R$4,78) e Rio de Janeiro (R$4,70).
É uma situação preocupante, já que muitos turistas (em especial, os europeus) estão acostumados a utilizar principalmente o sistema público de transporte. Com uma tarifa de R$ 2,75, os ônibus manauaras têm a vantagem de utilizarem como identificação principal os números da linha e não os nomes da mesma, o que facilita aos falantesde diferentes nacionalidades. Entretanto, há uma frota muito pequena se considerarmos a quantidade de pessoas que necessitarão. Em feriados é preciso muita paciência para conseguir ônibus para algumas localidades.
Além disso, nem todos os ônibus de Manaus têm adaptação para deficientes. Presenciamos um caso de um senhor que precisou ser carregado para subir à escada de acesso e ficar se segurando durante a viagem para que não deslizasse pelo ônibus.
Outra questão em relação aos ônibus é a dificuldade que o turista tem em se localizar. É necessário um treinamento aos funcionários (a exemplo os cobradores) para informar melhor aos usuários de sua linha, ao menos em português, as rotas. O que facilitaria muito seria a implantação de pequenos mapas indicando as paradas que o ônibus faz ao longo de sua trajetória, assim como as que têm nos metrôs de São Paulo.
Os projetos de mobilidade urbana para 2014 foram o Monotrilho Norte/Centro e o BRT Eixo Leste/Centro, ambos cancelados devido a irregularidades que atrasaram demais as obras. Por isso, a menos de um ano para a Copa, o Governo lançou um novo plano de mobilidade urbana para a capital amazonense, com medidas como a construção de complexos viários interligando as Zonas Leste a Oeste da capital; um novo complexo para facilitar o fluxo na saída da ponte Rio Negro e outro entre os bairros da Chapada e Parque das Laranjeiras, Zona Centro-Sul. Estão contidos ainda nessas propostas os corredores viários da Avenida do Futuro, da Colônia Antônio Aleixo e dos Franceses, além da interligação da BR-174 com a Avenida do Turismo. Mais detalhes aqui.

3.              Portos, aeroportos e mercadorias
Dentre esses três pontos, só tivemos a oportunidade de analisar o aeroporto de Manaus. O Aeroporto Brigadeiro Eduardo Gomes consta como cartão verde no Portal 2014.
Um investimento de R$ 327,4 milhões é o necessário para reforma e ampliação do terminal de passageiros e adequação do sistema viário, com previsão de entrega para dezembro de 2013. Segundo a Infraero, obras já estão 55% prontas e seguem o cronograma.
Como turistas, consideramos o número de serviços do aeroporto muito baixo, com poucas opções para lanchar, por exemplo, e não havendo nenhum restaurante para se fazer uma refeição mais elaborada como um almoço, diferente do Aeroporto Internacional de Belém - Júlio Cezar Ribeiro, conhecido também como Aeroporto Val de Cans.
O aeroporto de Manaus apresenta entrada e saída de viajantes numa mesma abertura: um “túnel” que leva ao espaço do aeroporto. Como será que ficará na Copa? Provavelmente causará um grande congestionamento de pessoas, não?
O espaço também necessita de maiores sinalizações em inglês, com direcionamentos para os locais e serviços do aeroporto, para melhor atender os viajantes de todo o mundo.
Além disso, o atendimento no aeroporto de Manaus não foi um dos melhores. Felizmente, contudo, a cidade está incluída no programa da Infraero no qual 320 profissionais de aeroportos regionais de 119 cidades vão fazer um curso até o final do ano para receber mais capacitação na operação desses aeródromos, na legislação que regula o setor aéreo e nas práticas de gestão aeroportuária.
Quanto à reforma, o orçamento feito é de R$ 327,4 milhões, cerca de 4 vezes mais caro que a feita no Val de Cans, em 2001 (com custo aproximado de R$78 milhões).

Cultura
Por último, gostaria de falar sobre esse que considero o ponto de maior destaque positivo de Manaus.
Bois-bumbás do Festival de Parintis. esquerda,
Garantido e, à direita, Caprichoso/Foto: Cultura do Amazonas
Está sendo criado um projeto de semana cultural durante os intervalos dos jogos da Copa para mostrar aos visitantes a riqueza cultural da região.Riqueza essa que é incontestável, considerando que a Amazônia é o assunto que mais interessa aos turistas em relação à Copa do Mundo no Brasil, seguida do Pantanal. Riqueza também que Manaus faz questão, com razão, de apresentar aos turistas.
Há um forte turismo cultural na cidade, que envolve o orgulho que os manauaras têm com seus bois-bumbás e com a etnia indígena. Esse certamente será o ponto mais alto no saldo final da relação custo x benefício quando se fizer o balanceamento dessa sede da Copa. Mas os passeios da ManausTur são relativamente caros aos bolsos brasileiros, com City Tour com preços de R$250, sendo que em Porto Alegre, por exemplo, é cerca de 10x mais barato.
Além disso, os governos do Estado e Município comprometem-se com a FIFA a reagendar eventos para os períodos que antecedem e procedem a Copa do Mundo promovendo sua cultura por mais tempo aos visitantes do evento.12 de junho a 13 de julho,período quando o maior evento do Amazonas, Festival de Parintins, é tradicionalmente realizado (último final de semana de junho para ser mais exato). Até agora nenhuma informação oficial foi dadaa respeito de um possível reagendamento do festival. Será que o evento se encaixa como uma exceção a esse compromisso?

Conclusão – Manaus é uma cidade amazônica que representa bem a região nos termos culturais e até mesmo ambientais, com a presença de uma linda orla na Praia da Ponta Negra e com ruas bem limpas. Porém, é uma cidade com pouca movimentação de pessoas. Diferente de outras metrópoles, como Belém, apresenta vida noturna pouco significativa. É como se fosse um ambiente mais voltado à vida do dia-a-dia, ao trabalho, à produção e muito menos dedicado ao lazer, ao turismo. Por isso e por todos os outros fatores relatados neste texto, deixo a seguinte indagação: Manaus está preparada para sediar a Copa?

Confira a seguir o vídeo-chamada da copa em Manaus:


Texto de Alice Martins Morais
Revisão de Lais Cardoso
Edição de Emanuele Corrêa

Fontes de algumas informações:

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